domingo, 11 de janeiro de 2009

Globalizar a paz

(Artigo de autoria de FEIZI M. MILANI, publicado pelo Jornal do Brasil e diversos outros jornais, na passagem de ano 2001 - 2002)


Já globalizaram a miséria, a fome, a guerra e a exploração do homem pelo homem. As nefastas conseqüências aí estão, para quem quiser enxergar. Agora chegou o tempo de globalizarmos a solidariedade, a justiça e a ética. Sim, o maior desafio do século XXI é a globalização da paz! Há boas e más notícias em relação a este processo histórico que, mesmo desapercebido, já teve início. Comecemos pelas boas. Todos os conhecimentos, recursos, infra-estrutura e mecanismos necessários à globalização da paz já existem e estão disponíveis. Por exemplo, seria impossível pensar em paz mundial se não houvesse uma integração planetária, de modo que todos os povos soubessem e reconhecessem a existência dos demais. A interligação alcançou patamares jamais sonhados com a Internet, que é também um canal de universalização do conhecimento. Resta ainda o desafio da democratização desses meios e instrumentos, mas essa é uma questão muito mais moral de que econômica ou tecnológica.

Quanto aos recursos financeiros, também existem em quantidade suficiente para se implementar e disseminar as referidas tecnologias e conhecimentos em benefício da humanidade. Uma drástica redução no desperdício com o desenvolvimento de artefatos bélicos e a corrida armamentista propiciará o básico em termos de qualidade de vida a todos habitantes da Terra. Como dizia Mahatma Ghandi, há riqueza suficiente no mundo para satisfazer as necessidades de todos, mas não para saciar a ganância de alguns.

Para globalizar a paz é necessário que as nações criem mecanismos de diálogo, bem como de planejamento e atuação em conjunto. Desde 1945, a ONU tem feito um trabalho extraordinário. Não fosse a ONU e suas agências, o mundo seria bem diferente do que é hoje. Diferente para pior! A Assembléia Geral da ONU é, na prática, o parlamento mundial no qual conflitos são negociados e guerras foram evitadas. A Declaração dos Direitos do Homem vem elevando a humanidade a novos patamares de civilidade e cidadania. Avanços históricos em campos tão distintos como os direitos da mulher, o equilíbrio ecológico, a redução da mortalidade infantil, o combate ao racismo, a mobilização em prol da cultura de paz, o controle de epidemias e a assistência a refugiados têm uma relação direta com os esforços da ONU.

Constata-se que a evolução social, política e científica tornou realidade os instrumentos necessários a uma nova ordem mundial. Não a que anunciam os que detêm o poder, mas sim uma ordem baseada na justiça e no reconhecimento da unidade do gênero humano. Cabe então, o questionamento - o que falta para que essa nova realidade se concretize? Diversos pensadores e líderes afirmam que somente a evolução espiritual e moral permitirá a superação desse dilema.

Essa é, justamente, a má notícia. As conquistas da raça humana acima citadas são passos necessários, mas insuficientes para viabilizar a paz no mundo. Todas elas já fazem parte do cotidiano da sociedade, mas não resultaram no ''produto'' mais ansiado, a paz, porque esbarram numa paralisia da vontade. As pessoas, os grupos e os governos - todos sem exceção - dizem amar e desejar a paz. Ao mesmo tempo, se deixam levar pela falsa idéia de que a violência e a maldade são inerentes ao ser humano, contribuem para perpetuar preconceitos, buscam a riqueza e o poder a qualquer custo, desrespeitam os valores éticos fundamentais, se fazem indiferentes ao sofrimento alheio, compram armas e destroem a natureza. Enquanto essa contradição moral não for superada, continuaremos a viver na velha (des)ordem mundial.

Na verdade, a má notícia é também boa: basta mais um passo para efetivarmos a globalização da paz. Os demais requisitos já estão assegurados. O que falta é essa transformação espiritual e moral. Trata-se de passo grandioso, mas é um só. Ele pode e precisa ser conquistado no interior de cada coração, família, comunidade, grupo social, empresa, governo e nas inter-relações entre eles. Eis o desafio - a um só tempo, simples e gigantesco - do século que se iniciou a ferro e fogo, em 11 de setembro de 2001.


(Disponível em: http://jbonline.terra.com.br/jb/papel/brasilia/2004/06/19/jorbrs20040619015.html)

2 comentários:

Ana Luiza disse...

Com a licença. agradeço desde já o espaço e atenção.

Gostei muito do seu texto e gostaria, se possível, que o amigo enviasse para o meu e-mail qualquer outro material relacionado à Campanha da Fraternidade. ( araujoalm@hotmail.com).
Atte.

Ana Luiza

Feizi disse...

Valeu, Ana Luiza.

Enviarei alguns artigos e capítulos de livros de minha autoria, na esperança que sejam úteis aos seus esforços.

Conte comigo, e eu conto contigo para divulgar o blog!

Abraços, Feizi